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domingo, 29 de janeiro de 2017


A minha alma tá armada e apontada
Para cara do sossego!
Pois paz sem voz, paz sem voz
Não é paz, é medo!
Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar
Pra tentar ser feliz?"
As grades do condomínio
São pra trazer proteção
Mas também trazem a dúvida
Se é você que tá nessa prisão                  

O Rappa



 "Arcos do Jânio" acesso à Av. 23 de Maio - São Paulo, com tapumes, tudo pronto para execução







Não lembro se já disse, então: não tenho conta no Facebook.

Acompanho notícias pelos blogs informativos que confio, e dou umas olhadinhas no Facebook de alguns amigos, quando me convidam a conversar a respeito.

Vou me inteirando do que aconteceu no planeta e na cidade nos tempos recentes, e vou confessar que isso dá um trabalho do cacete, além de colocar à prova os resultados de todos os exercícios de meditação, tai chi chuan, espiritualismo, posturas de fé na humanidade, tudo isso que em algum momento as pessoas de minha geração experimentaram ou botaram uma fé.

Noutro dia minha amada amiga, ficou numa saia justa.

Um colega com quem ela tem alguma afinidade, fez uma postagem sobre qual vegetação seria a mais apropriada para ocupar os grafittis dos "arcos do Jânio", algumas opiniões ali surgiram nesse contexto, porém ela -  como diziam antigamente quando alguma criança aparecia no meio de uma conversa de adultos - estava descalça, e participou da conversa muito sinceramente dizendo que preferia os grafittis a qualquer vegetação.

Seu amigo de Facebook, na sequência fez dois comentários, o primeiro dizendo que pra tudo tem local e aqui ali grafitis não era um local apropriado. Diante de outros comentários que tentaram enxovalhar minha amiga, o dono do post interveio informando ali se tratar de uma discussão técnica e não política.

Bem, minha amiga é uma pessoa educada e ponderada, e digamos que estas não são afinidades que nos une, sendo assim ela se desculpou e saiu da conversa, parece que isso é um código de ética no Facebook.

Quanto a mim, fiquei digerindo a questão.

Primeiro: o que é ou não apropriado ao quê.
Segundo: há que se perguntar em qual enredo técnica e politica se convergem ou se excluem, e por quê.
Terceiro: o atual gestor (sic) da cidade, grafittis não são apropriados a quase todos os lugares, afirmação essa que pessoas, como a citada, compartilham.
Questiono se compartilham da opinião, ou se compartilham da febre insana em querer apagar real e simbolicamente, tudo o que foi construído em favor da cidade, e principalmente pela inclusão de seus cidadãos, e sinceramente, questiono o por quê.
Tal qual, o amante que inseguro de seu desempenho, e sabidamente inferior ao seu antecessor, tenta em vão destruir,  matar.

Lembrei de Chico Buarque

Ele era mil, tu és nenhum
Na guerra és vil, na cama és mocho
Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim
E vê se o fogo dele guardado em mim
Te incendeia um pouco

Éramos nós, estreitos nós
Enquanto tu, és laço frouxo
Tira as mãos de mim, põe as mãos em mim
E vê se a febre dele guardada em mim
Te contagia um pouco.

Como já disse em outro post, não há tinta cinza o suficiente para apagar as cores que compõem  a diversidade desta cidade, pois a cada mural apagado outro nascerá, porque são frutos das pessoas, dos artistas que se expressam em formas e em cores.

Não haverá paz na alma de quem já sabe em que estruturas se apoiam os podres poderes e o de seus asseclas.

Às vezes eu falo com a vida, às vezes é  ela quem diz
"Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?"

Tú és mocho e vil, mas a sociedade é fogo,  é vida em estágio puro.

Sobre técnicas, política e ética, conversaremos depois.






















terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Eu apoio o Grafitti na cidade, eu apoio o som das vozes roucas que reaprenderam a cantar, eu apoio as danças nas ruas, eu apoio a vida e a diversidade.


Assuntos prementes fizeram com que  a conversa com minha amiga (?!) ficasse momentaneamente interrompida. Depois eu conto.

Neste momento o assunto é outro, e grave, gravíssimo.

Vamos lá, direto e reto.

Falamos de poder, podres poderes, intolerância, ódio, inocência e ignorância.

É comum quando um casal, seja qual for sua composição, se separa, um agredir ao outro: são livros rasgados - inclusive os preferidos, daqueles com maior significado, discos, DVD´s, taças que voam, roupas que se rasgam.
Os mais saudáveis ficam por aqui, o que buscam, buscamos,  é matar em si e no outro todas as referências afetivas, a partir de tudo o que um dia possuiu um significado, talvez, uma forma de aniquilar um sentimento de amor, ódio, rejeição, inveja, seja lá o que for, o que se busca é conter a dor, e resignificar a vida, nem que seja a partir do caos.

Quem nunca?

Tenho visto nos noticiários as ações de um recém eleito a governante mas que,  porém, realmente se comporta como Junior.

Ignorante culturalmente? sim.
Jeca total? sim.

Mas, de uma coisa a pessoa entende: $$$$$$
Sendo assim, não seria somente a "jequice" o fator preponderante para que transformasse em cinza painéis artísticos distribuídos pela cidade, alguns deles não somente de valor artístico, como também monetário. 

Painéis que atraíram em algum momento a visita de turistas tanto internos quanto externos à cidade, o que significa grana em movimento.
A pessoa pode ser tosca, mas não é uma anta completa.

Aí despintou, arrancou dos muros da cidade tudo aquilo que, em cores, um dia significou a voz de seu povo, a dignidade de grupos de artistas que se reconheceram na capacidade de tornar bela a cidade tão cinzenta com seus muros e edifícios, com suas poucas extensões de parques e praças, e por isso,  incapazes de fazer sonhar pelos olhos e por todos os sentidos, artistas que trouxeram a possibilidade de fazer sonhar, refletir, aos cidadãos que passam rapidamente. 

A arte trouxe voz a quem a constrói e vida a quem dela se deleita, os não lugares passaram a ser locais de prazer.

E isso foi insuportável para quem afirmou (segundo notícias de jornais) que irá "governar para a maioria silenciosa e não para a minoria ruidosa", creio que isso expressa a que veio: fazer calar e manter o silêncio monocórdico, a partir do eixo monocromático.

Isso sem falar nas ações a respeito de pessoas em situação de rua, extinção de programas sociais inclusivos como o de Braços Abertos, cuja abordagem específica ficará para outro momento, porém, claro está que se trata de um pacote, um combo.

Depois de despintar, transformar tudo em cinza, a notícia de hoje é a que a pessoa admitiu que ficou muito cinza, e vai mandar colorir novamente (sabe-se lá como e a que custo e gosto).

Ficou claro como um céu azul de inverno, que ao remover os grafittis o que se buscou foi apagar a marca de seu antecessor, e com ela todo o significado do que se propôs aquela gestão: inclusão social, voz a quem a vida ou a estrutura social injusta um dia calou, esperança a quem tem dificuldades de sair de sua viagem-pesadelo, dignidade a quem tem orientação de gênero diferente daquela tida como a "natural" segundo interpretações carolas de um livro que anda muito em moda no círculo da intolerância e do ódio, por mais paradoxal que isso possa parecer.
Agora, está em curso um projeto que transformará a cidade, não mais no local de convivência que se buscou com a construção de novas praças e seu aparelhos de ginástica, ou opções de lazer gratuito, o que se projeta no futuro é uma cidade mercado, tipo "famiglia vende tudo": o laguinho, as borboletas do jardim, as flores e suas cores, o sol e a brisa, de brinde podem levar as crianças, os velhos e os desafortunados, está também no "kit" a dignidade de quem ousou acreditar que a vida é sonho.

Mas... só que não.












segunda-feira, 14 de novembro de 2016


"O que foi feito. amigo, de tudo o que a gente sonhou, o que foi feito da vida, o que foi feito do amor?"

Milton Nascimento


Eu voltei!!!!!!!!!

Perdi a memória por alguns anos, mas, estou aqui novamente!!

Gente, que tempos estranhos, parece que voltei uns quatro séculos.

Depois de ver o noticiário na TV e algumas notícias na internet, fiquei estarrecida, e fui procurar a Glorinha.

Glorinha era minha parça no começo da juventude, descobrimos várias coisas sobre nós e sobre o mundo, juntas. Pessoa de confiança, ela haveria de me explicar o que está acontecendo.

"O mundo está ao contrário e ninguém reparou" como dizia Nando Reis na voz de Cassia Eller.

Breve perfil da Glorinha.
Seu pai é médico com um cargo top em hospital renomado, sua mãe é psicóloga e atende em consultório particular, a Gloria fez Belas Artes e em complemento aos estudos passou uns anos na Europa. Depois disso casou e teve dois rebentos, atualmente administra uma lojinha de antiquário que foi presente de seu pai.

Banhada e perfumada, saltitante cheguei à casa de Glorinha.

Ansiosa mais que nunca, desatei a falar.

Não estou entendendo nada!!
Viemos de uma juventude vivida na ditadura, fomos às ruas gritar pelo Fora FMI e Diretas Já, a muito custo a sociedade conquistou o direito de eleger seu presidente e todo o legislativo,e agora vi, li, e ouvi, pessoas de nossa geração, mais velhas e mais jovens, irem às ruas e pedir o impedimento da presidente eleita democraticamente, isto é, pelo voto direto. 
Impedimento sem que ela tenha cometido qualquer crime contra o Estado!
Vi, li e ouvi, que o julgamento foi feito por vários congressistas envolvidos até as tampas com corrupção, como pode isso??!!

Li, de pessoas bens formadas, opiniões sobre o quanto os trabalhadores são vagabundos, isso porque reivindicam a manutenção de direitos trabalhistas conquistados a duras penas a partir de leis constituídas na década de 30!

Se considerarmos todos os ganhos obtidos pela tecnologia no processo produtivo, seus direitos atualmente são desproporcionais, isto é, em muito se elevou a capacidade de produção e quase nada se liberou em tempo livre aos trabalhadores para que pudessem desenvolver outras potencialidades em benefício próprio, ao núcleo familiar e à sociedade.

Aliás, o que se observa, é que atualmente temos uma sociedade de serviços, seus empregados com o auxílio da tecnologia,  agora trabalham de casa após o horário de trabalho estabelecido. Em outras palavras, houve a extensão da jornada de trabalho.

Glorinha pálida me convidou a sentar e me ofereceu um copo com água (preferia o vinho de antigamente, mas enfim..).

E isso de "o mito" que p. é essa?
E o congresso? estão lá, eleitos,  umas três centenas de pessoas entre deputados e senadores, que pautam suas ações por uma tal teologia da prosperidade, que p. é essa? e a teologia da libertação?

E a liberdade? e a emancipação das pessoas ao exercício pleno de cidadania?
e o Estado laico? o que houve?

Enquanto eu falava, Glorinha prendia os cabelos, orientava a empregada com relação aos filhos, jogava um xale nas costas, e por fim me pediu licença, poderíamos conversar mais durante a semana, pois estava na hora do culto.

Voltei à casa me sentindo só e desamparada.

Na minha solidão tentarei compreender...volto depois.






quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

As Férias de Silvia

Era um domingo do mês de janeiro, verão no Patropi e véspera do primeiro dia de férias de Silvia.
Silvia bem que merecia umas férias tranquilas. A um custo razoável alugara uma chácara nos arredores da cidade para ali passar alguns dias com seus filhos Lilica e Fernando e sua neta Clarinha, filha da Lilica.
Mas Lilica não estava nem aí com a hora do Brasil, de modo que Silvia é quem era a mãe de fato da Clarinha.
Silvia com seu astral imbatível, apesar de todas as agruras que a vida lhe causara ao longo de seus quarenta e pouquinhos anos, é a alegria de sua família e de seus amigos. Não há uma reunião sequer que ela não faça rir, às vezes às gargalhadas, mesmo os espíritos mais rígidos e até sombrios.
Bem... na verdade nem todos os espíritos sombrios se riem das estórias de Silvia. Lá no seu trabalho de onde tira a sobrevivência dela, dos filhos e neta, existe um chefe.
Sabem todas as características das mais alegóricas que buscamos para ilustrar a figura de chefe? Pois Geraldo é assim, esse chefe do nosso imaginário. Pasmem, ele existe e nessa época era o chefe da Silvia.
Com o Geraldo não tinha acordo, Silvia se ausentava para levar Clarinha ao médico, e ele ignorava todas as condições de acordo coletivo sindical, que permitia o acompanhamento de filhos ao médico.
Mas afinal Silvia tem a guarda de Clarinha... como assim?!
Assim que Geraldo não tinha dúvidas, Silvia atrasava ou faltava, apresentava atestado médico e Geraldo do alto de seu micro poder, mandava ver: falta injustificada.
Para quem não conhece esse vocabulário, eu explico: falta injustficada significa, desconto das 8 horas do dia, mais o final de semana remunerado e ainda o abatimento de um percentual sobre as férias, de forma que a pessoa além de receber seu salário com um montão de descontos, ainda deixa de ter direito aos 30 dias legais de férias anuais.
Esse era a figura que Silvia conviveu por um ano inteirinho para usufruir de suas justas férias, ainda que reduzidas.
Porém, na semana anterior ao período de férias, aconteceu um episódio que nos faz rir, mas que não fez ao Geraldo e na verdade, naquele momento, nem à Silvia que protagonizou o caso.
Silvia cansada das vilezas de Geraldo, e após inúmeras tentativas de entendimento pelo diálogo, foi à luta por seus direitos.
Como resultado de conversas com o representante sindical de sua área, preparou uma tabela, contendo todas as informações sobre suas ausências, juntou os documentos que comprovavam a legalidade de tais ausências e apresentou tudo na área de recursos humanos da empresa.
Resultado: barraco geral!
Geraldo tremia suas bochechas rosadas - a bem da verdade roxas - que faziam sacudir seus bigodes, sua pele oleosa fazia escorrer pela testa grossas e nojentas gotas de suor, que causavam ainda maior aspereza ao seu semblante.
Isso sem falar no funga-funga causado pela rinite, companheira fiel do Geraldo, que o fazia manter nos bolsos um velho e remelento lenço de pano, e que nesse momento trazia seguro nas mãos na vã tentativa de absorver a nascente de suor.
Silvia, com sua inteligência, determinação, beleza e um certo jeito debochado, já havia feito tremer de prazer alguns homens, mas de ódio talvez fosse essa a primeira vez, e, a um só tempo, vivia e observava esse momento.
Geraldo, com suas pernas trêmulas, o velho lenço na mão, protegido por detrás de sua burocrática mesa, os olhos miudinhos atrás dos óculos, o dedo em riste, ordenava aos gritos à Silvia para que se sentasse.
Geraldo era patético, e Silvia altiva como convém a uma guerreira.
Não sou criança, sento quando quero!
Geraldo insistia no imperativo, e Silvia com seu olhar em brasa, e a razão que escorria por sua boca em forma de palavras, calmamente o fez entender que não havia mais nada para conversarem sobre o assunto e, que se ele sentia mesmo prazer em gritar, que fosse gritar com sua mulher.
Naquele momento, Geraldo se transformou, Silvia parecia ter atingido algo recôndito naquele ser; o homem inflava a ponto de explodir... de súbito calou a voz e se recolheu a um profundo silêncio.
O silêncio tenso esclareceu a todos, nenhuma palavra seria capaz de expressar aquela situação, não haveria mais qualquer possibilidade de diálogo ou convivência.
E foi assim que Silvia conseguiu sua ¨"carta de alforria" para mudar de área na empresa, recuperou parte de seus dias de férias, além do salário que havia sido subtraído por pura maldade de Geraldo.
E Geraldo? Ele ficou lá fingindo não perceber os risinhos marotos de seus subordinados, e sem saber - à medida que sua pouca inteligência não lhe permitia - que sua autoridade é como um frágil cristal, e que a partir daquele momento já apresentava pequenas fissuras, invísíveis talvez aos olhos mas fatais diante da passagem implacável do tempo.
Pobre dele... pobre deles... de todos os Geraldos que encontramos pela vida.

E assim, Silvia se absorvia de suas férias e compartilhava com Lilica a alegria de sua liberdade profissional, quando tocou o celular, esse instrumento invasivo e cultuado no mundo contemporâneo.
Alô?! quem? Márcia? Olá, como você está? O quê? para que você quer que eu volte urgente? O que está acontecendo com você garota? Mércia?! que Mércia? ah, sim... sua irmã. Que foi? Bom... se ela não está doente e nem morreu, porque aí sim você talvez precisasse de uma força, não tem urgência nenhuma que vai me tirar daqui. Amanhã preciso resolver algumas coisas na cidade e aí conversamos.
Bem, vamos às apresentações:
Márcia era amiga de Silvia há 30 anos, ou seja praticamente desde a infância. São Paulo, apesar de seu gigantismo e certa aridez afetiva, ainda permite esses vínculos, principalmente nos bairros, onde as pessoas nascem, crescem e vivem suas vidas.
Entretanto, Mércia era apenas a irmã de Márcia nenhuma afinidade com Silvia, de forma que essa urgência em lhe falar a deixou intrigada.
Na segunda-feira de manhãzinha, Silvia já ligava para Márcia a fim de saber que tal de assunto urgente era esse, pelo qual estavam as irmãs dispostas a interromper o seu sagrado final de semana.
A estória era que Mércia suspeitava fortemente da traição de João, seu marido, e queria por todo meio que Silvia ficasse de tocaia na farmácia de João a fim de descobrir a amante e o endereço de sua residência.
Silvia ouvia incrédula a "urgência" de Mércia. Como podia essa mulher que nem sua amiga era, se valendo da amizade da irmã, pedir algo desse tipo a ela que já tinha tantos problemas a resolver com sua própria vida?
Mércia é uma mulher como tantas outras, casada com João há quarenta anos, ele com a farmácia, ela cuidando da casa e fazendo costuras para reforçar o orçamento, criaram e educaram os dois filhos.
Agora que construíram um patrimônio modesto, e quando ela começava a sentir que a velhice lhe apresentava em recompensa uma total falta de atratividade, ele, João, não tinha o direito de se meter com nenhuma outra mulher.
Viveram juntos até aquele momento, e se fosse para serem infelizes que continuassem a ser, porém, juntos!
Por essa razão ela insistia para que Silvia descobrisse o endereço da "sirigaita".
Silvia ainda incrédula porém atenta, questionava por quais razões Mércia queria saber o endereço da moça, não bastava saber que ela existia? Mas Mércia, por mais que Silvia insistisse não cedeu a nenhum argumento, não apresentou razões, e permaneceu empacada, querendo saber qual era o endereço de sua rival.
Escolada pela vida, Silvia não ia querer esse envolvimento, sabia que existem algumas pessoas que por qualquer quinhentos reais dão cabo de uma vida.
Ia ela saber das reais intenções de Mércia? E se ela estivesse querendo dar um fim na moça? Não... definitivamente não seria ela, Silvia, quem iria entregar o serviço e deixar uma pessoa, que sequer conhecia, nas mãos de um matador.
Silvia olhava nos olhos de Mércia e via a dor e o descontrole, causados pela rejeição e traição, e talvez também pela possibilidade de neste momento, em que a juventude lhe escapava, ter de ficar sozinha e sobretudo ser forçada a dividir seus parcos bens.
Apesar do "não" definitivo de Silvia, Mércia fez um pedido: apenas iriam juntas até a farmácia do João para observarem. Sendo apenas isso, e pela amizade que tinha pela irmã, ela concordou e partiram as duas no carro de Silvia.
Já na rua, próximo à farmácia, Silvia tomou um susto quando viu Mércia deitar o banco, camuflada por uma peruca loira e uns óculos escuros.
Não era possível estar vivendo aquela situação ridícula, e ainda no primeiro dia de suas férias! Não... ela deixaria Mércia em casa entregue à sua dor, e voltaria correndo para a chácara e lá ficaria acolhida por sua família.
Silvia observou João na farmácia: o olhar perdido, a cabeça pendida apoiada pelas mãos, cujos braços eram sustentados pelos cotovelos apoados no balcão.
Definitivamente, não parecia alguém que vivia uma paixão extraconjugal, era um homem triste.
Foram e voltaram com o carro, e João permaneceu preso a sua solidão.
De volta à casa, Silvia ratificou tudo o que já havia dito: não atenderia ao pedido de Mércia, mas quem sabe Mônica, amiga comum dela e Márcia, talvez ela tivesse menos escrúpulos.
Assim, Mônica se uniu ao grupo, foi informada do assunto, e Mércia esclareceu seu plano: bastava ficar na padaria, defronte à farmácia, disfarçada com a peruca e os óculos escuros.
Mônica manifestou a possibilidade de aceitar o trabalho, mas de cara precisaria de dinheiro para condução e refeição, para isso Mércia disponibilizou vinte reais por aquele dia.
Silvia deu uma carona para Mônica, que queria fazer uma prospecção do local, antes de efetivamente iniciar o trabalho. E assim, as duas transformaram os vinte reais em cervejas que beberam na padaria, observando o pobre João que mantinha sua solidão: nem cliente e nem amante.
E as duas riram-se muito de toda aquela ridícula situação.
O dia terminou e Silvia finalmente pode voltar para suas férias.
Passaram-se semanas, Silvia lembrou do episódio e buscou saber junto à Márcia como havia se encerrado aquele caso.
Márcia e Mércia não estavam se falando, romperam a amizade de irmãs. Mércia contratou outra pessoa para o serviço e, juntamente com ela, ficou de plantão na padaria, com seus vestidos de florzinhas, perucas loiras e óculos escuros.
Julgando-se observadoras eram elas observadas, e não perceberam que eram seres absolutamente estranhos àquele ambiente, onde transitavam mulheres e homens do bairro que começaram a desconfiar se aquelas mulheres não seriam policiais femininas em investigação à "boca de tráfico" que existia quase ao lado da farmácia.
As moças, na verdade senhoras, tão preocupadas com a amante de João não se deram conta do movimento do tráfico, bem debaixo do nariz.
E numa inversão total do sentido de proteção do estado, ambas mulheres foram presas e sofreram um interrogatório feito por policiais que ali apareceram com uma viatura, acionados pelo comércio das drogas, e tiveram de explicar o que faziam ali plantadas na padaria, tão discretas quanto alguém vestindo um terno amarelo-gema num velório.
Mércia não suportou a humilhação e, talvez, para que ela própria pudesse de algum modo esquecer o que havia acontecido, rompeu com a irmã posto que ela era testemunha do ridículo por que passou.
João e Mércia continuam casados, ele na farmácia e ela na costura.
A amante, diz-se que era uma mulher nem tão jovem, mas atraente para sua idade, seu endereço ninguém jamais soube, e depois do sucedido não foi vista na farmácia do João, se é que algum dia lá pôs os pés.
Silvia já comemora um ano sem o Geraldo, e às vésperas de suas férias, entre uma cerveja e outra, entre um caso e outro de cada uma de nós, nos conta essa estória.
Como diria Nelson Rodrigues: A Vida como ela é.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Uma História de Amor e Arte

Esta é uma leitura livre do romance entre Georgia O´Koffee e Alfred Stieglitz
por Barbara Luz

Caía a tarde quando entrou em minha vida...na sua era sol poente.
Lembro o dia em que juntamos meus pincéis e suas lentes.
As telas espalhadas ao chão e a cama em direção às estrelas.

Na manhã seguinte raios de sol, filtrados pelo vidro da janela,
iluminavam parte de meu rosto e de meus ombros,
de pintora me fiz em musa, só para ser captada por sua objetiva.
Dona absoluta de mim, me entreguei a você de maneira inconteste

Entre uma fotografia e outra, registrei minha passagem nas telas,
nelas depositei toda a energia da vida e do meu afeto por você.
Por amor, prazer e talvez uma dose de vaidade
fiz de meu corpo seu brinquedo, de minhas formas um enredo para seu ensaio

Não imaginava que esses momentos de intimidade
seriam minha porta de entrada para a galeria de arte,
festa em homenagem ao trabalho do grande fotógrafo.
Minhas formas, agora públicas, transformariam em
curiosidade a minha arte, era o que me dizia, e assim foi.

Passaram-se breves os anos, minha arte florescia
suas fotografias se acumulavam, enquanto seus cabelos
tornavam-se tão claros quanto algumas de minhas telas.

O tempo passou inexorável.
O que ainda ontem era um mistério a se revelar,
era então um retrato velado em seu olhar.

Por maior que fosse nosso amor, e seus frutos em arte
Não sobreviveria ao seu lado, dividindo com você
novas admiradoras por quem sentia o prazer viril em controlar, tutelar.
Sua natural crueldade seria minha destruição.

Estar sem sua vida passou a ser como entrar nua em um roseiral, sem as rosas.

A fim de conter meu sangue, me fiz distante, quilômetros distante.
O Sol desse lugar longínquo estancou minhas róseas lágrimas,
e fez brotar em meus quadros novas paisagens.
Você em mim continuou a existir, e assim foi até o fim,
no dia em que adormeceu em meus braços para eternidade.





domingo, 28 de novembro de 2010

Movimentos Sociais Parte II - "Do Gueto pros Mundo"

Como dizia, tive o enorme prazer em visitar o IV Encontro Paulista de Hip Hop, ocorrido no Memorial da América Latina, no sábado – 27/11.

O objetivo do Encontro, segundo informações que obtive no site: http://www.rapnacional.com.br/ ,
foi de que

“o IV Encontro Paulista de Hip Hop não é só música. O evento promove discussões relevantes sobre a questão do hip-hop como cultura e movimento de negritude, de afirmação e política. Será inaugurada a exposição Consciência Negra em Cartaz. Uma novidade interessante é a junção entre Repentistas, Mc’s, Partideiros e Capoeiristas, em uma troca de experiência sobre a improvisação, tão presente no rap e na embolada.” e “Palestras, workshops, batalhas de Mc’s e de Breaks fazem parte do evento. E, para finalizar, as crianças também serão contempladas: Oficinas de Breaking I e II (B.Boying / BGirling), para a faixa etária de 5 a 12 anos, com Bispo SB; e a Hora do Conto II, com Maria Edithe.”

Deu pra ter uma idéia do que foi o evento?

Como o movimento Hip Hop não é algo que está no meu cotidiano, tudo o que vi foi com um olhar de visitante.

Fiquei encantada com a beleza e a alegria da juventude que lá estava, e mais: em perceber como a criação artística agrega pessoas, propicia o reconhecimento da identidade cultural, a noção de pertencimento a uma comunidade, e ainda estimula a busca do conhecimento não apenas das raízes, mas também, e tão importante quanto ao meu ver, o conhecimento do que foi produzido pela humanidade em séculos de civilização.

Por essa realização que contou com tanta gente, quero em particular cumprimentar minha grande amiga e Curadora  dp Evento Analú Silva Souza.

Fiz algumas fotos de trabalhos em graffiti realizados durante o evento, que compartilho:






Movimentos Sociais - Parte I

Ontem – 27/11, um sábado ensolarado na cidade São Paulo, tive o prazer de participar de festas de dois grandes movimentos sociais e políticos.

Acompanho a trajetória de Carlos Zarattini, o Zara, desde o início dos anos noventa quando foi candidato a vereador por São Paulo.
Para quem não o conhece, sua história política pode ser vista em seu site: http://www.zarattinipt.com.br/historia.htm, depois de vereador pelo Partido dos Trabalhadores, foi também eleito deputado estadual, e com a eleição de Marta Suplicy para Prefeitura de São Paulo, assumiu a Secretaria de Transportes do Município, sendo essa gestão responsável pela execução do projeto de Bilhete Único que muito contribuiu com os trabalhadores desta cidade.

Pois bem, neste ano de 2010, em que elegemos Dilma Rousseff Presidente do Brasil, Zarattini foi reeleito Deputado Federal com mais de 200 mil votos, ampliando assim o reconhecimento na sociedade tanto de seu trabalho político como o do Partido dos Trabalhadores.

E foram essas pessoas que tive a alegria de ver presentes na festa de comemoração, que aconteceu na quadra da escola de samba Rosas de Ouro. A festa foi linda, pena que minha máquina fotográfica, estava sem bateria. Imperdoável! Fiz algumas fotos pelo celular, e que não estou conseguindo baixar. Se ficarem razoáveis postarei no facebook.

O que quero mesmo afirmar aqui, é minha satisfação em ver e sentir que o Partido dos Trabalhadores, por todo o trabalho político realizado pela democratização de nosso país, e que por isso entrará agora em sua terceira gestão na Presidência da República, continua fiel às suas raízes nos movimentos sociais de onde nasceu.

Mais para o final do dia, tive a oportunidade de estar presente no IV Encontro Paulista de Hip Hop, ocorrido no Memorial da América Latina. Maravilhoso.

Sobre esse assunto escreverei em outra postagem, pois esta já está muito looonga.